/A Falta de Energia Elétrica e a Sobra de Gás

Data: 
03/10/2000
Autor: 
*Luiz Pinguelli Rosa

Hoje está claro que há um alarmante crescimento do risco de déficit de energia elétrica. A crise do setor deve-se à falta de investimento em geração, contrariando a expectativa de um fluxo de investimentos estrangeiros para expansão do setor, motivada pela privatização em curso. Isto não ocorreu, entretanto, exigindo que o governo volte à cena, como fez o Ministério de Minas e Energia (MME) ao formular um plano de 49 termelétricas. A maioria é a gás natural, com estímulos para sua execução pelo setor privado, associado em parte à Petrobrás e financiado em parte pelo BNDES e pela Eletrobrás. Os reservatórios das hidrelétricas fazem acumulação plurianual de água no sistema interligado. Mas estes se esvaziaram devido a uma operação anormal, em virtude da falta de capacidade instalada para atender ao crescimento da demanda. Estavam com 60% de sua capacidade em 1999 e ficaram mais baixos em 2000, embora as chuvas no Sul, agora, tenham adiado um pouco a crise que se avizinha.

Desde o blackout de 1998, tenho buscado mostrar a urgência de soluções no curto prazo, até que ações de médio prazo tenham efeito. A construção das termelétricas para a rede levará de 3 a 5 anos. Em artigo na Folha de 22/5/2000 apontei a crise, então negada oficialmente e ignorada pela opinião pública, e mostrei que o preço do gás natural em dólares levaria a um custo de geração termelétrica cerca de duas vezes o da tarifa praticada por Furnas. Sugeri como solução emergencial: "Estímulo e financiamento da geração elétrica a gás natural distribuída... usando co - geração e microgeradores que podem ser instalados em qualquer lugar; Conservação de energia (PROCEL)...; Energias alternativas...; Reequacionar o preço de gás importado...; Suspensão da venda de Furnas, usando-a para viabilizar um mix de custos de geração com um custo médio suportável... rediscutir a privatização de Furnas". A Folha publicou isto há 4 meses. De lá para cá a crise explodiu.

Estas propostas repercutiram no governo e participei de algumas conversas e discussões. Recentemente a imprensa despertou para a crise de energia elétrica, que foi reconhecida por entidades empresariais, como a FIESP, uma das entusiastas do modelo de privatização do setor elétrico. Mas agora, para atrair investidores estrangeiros, o governo admitiu dolarizar a tarifa e repassar o risco cambial aos consumidores. Houve um debate na Comissão de Infra - estrutura da Câmara Federal organizado pela Federação Nacional dos Urbanitários, Sindicato dos Engenheiros - RJ e outras entidades sindicais.

O Instituto Virtual Internacional de Mudanças Globais (IVIG) da COPPE-UFRJ formou, com o Instituto Ilumina e a Sociedade Brasileira de Planejamento Energético, um grupo de trabalho que elaborou estudo mostrando que o risco de déficit de energia, em poucos anos, passou de 5% para mais de 15%. No estudo, sugerem a captação de recursos para investimento, através da ampliação do capital de Furnas, e a venda de ações da empresa pulverizadas, sem privatizá-la. A privatização de Furnas foi adiada embora o governo insista em fazê-la, mas pulverizando as ações. A privatização das empresas elétricas vendidas a grupos estrangeiros não trouxe investimentos e a energia elétrica se torna um gargalo para a esperada retomada do crescimento, pois as termelétricas não serão concluídas a tempo.

Por outro lado, o gás natural está disponibilizado nas principais capitais do país, embora haja necessidade de fazer redes de distribuição locais. Há disponibilidade adicional de gás natural: além de 8 milhões de m3/dia do Gasoduto Bolívia/Brasil não usados por enquanto (previstos 15; usados 7; capacidade máxima 17), há o gás queimado nos poços ou injetado e a antecipação da produção possível. De março a julho deste ano o gás queimado na bacia de Campos passou de 3 para 6 milhões/m3 dia. Logicamente, esta diferença é devida ao gás boliviano estar vindo para o Rio, ao lado de Campos, para cumprir o contrato com a Bolívia. Somando tudo há um adicional imediatamente disponível de mais de 20 milhões de m3/dia, o que permite ampliar a potência elétrica em 5 GW em ciclo combinado ou em geração distribuída. Corresponde ao crescimento da demanda em um ano. O contrato de livre acesso ao gasoduto autorizado pela ANP em 29/09/00 é de apenas 1 milhão de barris/dia. Portanto, nos próximos anos deverá haver sobra de gás e alta probabilidade de falta de energia elétrica, não somente de ponta, mas de energia firme. Há possibilidade de corte seletivo por áreas. Neste cenário se pode esperar problemas de qualidade, confiabilidade, falta sazonal de eletricidade, alta nas tarifas, volatilidade de preços e racionamento.

A geração distribuída a gás natural, em indústrias, hotéis, hospitais, shopping centers e supermercados, poderá contribuir para uma resposta urgente à crise, ao lado da conservação de energia (lâmpadas mais eficientes economizariam 2,5 GW), da gestão da demanda e das fontes alternativas, como o bagaço de cana, o uso de resíduos urbanos e agrícolas (há uma nova tecnologia, da celulignina), pequenas hidrelétricas, a energia eólica e solar. Isto foi discutido em recentes reuniões técnicas no IVIG-COPPE com membros da ANEEL, ANP, Eletrobrás, TBG, Newmar Energia e Texaco. Foi formado um segundo grupo de trabalho que está estudando a criação de um programa de geração distribuída a gás natural (PROGEDIS), complementar às termelétricas da rede, de forma integrada com outros programas para o curto prazo: a revitalização do PROCEL da Eletrobrás, agora já assumida pelo governo e a ampliação do PRODEEM do MME, para fontes alternativas. Uma usina de geração elétrica usando lixo pode ser feita em 9 meses.

O Programa de Geração Distribuída, encaminhado ao governo, inclui cogeração industrial e nos serviços, com 12 a 18 meses para aquisição dos equipamentos; climatização, com 6 meses para implantação da geração de frio à gás, economizando eletricidade (bombas de chillers substituem equipamentos elétricos); autogeração, com 6 meses. Deve haver três estágios: implantação de grupos geradores nas empresas (isto já se inicia desordenadamente, usando diesel, o que é absurdo); entrada no mercado atacadista (Spot) para venda do excedente à rede; geração na área de distribuição como uma planta virtual, com despacho automático na rede. Entretanto, é necessário uma política para viabilizar a geração local, incluindo as empresas elétricas, que devem dar o back up em paradas para manutenção e colocar na rede o excedente da geração distribuída a gás.

*Vice-diretor da COPPE/ UFRJ e Coordenador do Instituto Virtual de Mudanças Globais da COPPE