/O clima da Terra e a redução das incertezas

Data: 
27/02/2007
Autor: 
*Luiz Pinguelli Rosa

A divulgação em Paris do Quarto Relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC) causou grande impacto na mídia em todo o mundo. Muito do que dele consta já tinha sido discutido publicamente. Qual foi então a novidade? Primeiro, a redução da incerteza. A ciência convive com o erro. Uma boa teoria sobre a natureza permite especificar os erros nas previsões. Quase sempre a certeza é sobre o óbvio, como dizer que amanhã poderá chove ou não. O relevante é quando a meteorologia prevê, por exemplo, que há 90%de probabilidade de chover amanhã. Para se chegar a essa conclusão usam-se modelos matemáticos, com equações da física e informações sobre a atmosfera. Nas previsões meteorológicas de mais longo prazo o erro vai aumentando até ficar imenso. Cai-se no terreno da imprevisibilidade dos sistemas caóticos. Por isso, a previsão do tempo é sempre de curto prazo. O clima é mais complicado ainda que a previsão do tempo. Portanto, o consenso na redução da incerteza desarma os céticos e convence governos e empresários.

Em segundo lugar, deu-se maior atenção aos casos extremos e não só à média no comportamento do sistema climático. Aí se revelam os fenômenos severos como furacões, chuvas intensas, etc. As conclusões apontam que a intensificação do efeito estufa pela ação humana contribui para anomalias que estão ocorrendo: temperaturas malucas, degelo anormal no Pólo Norte e, no Atlântico Sul, o furacão Catarina que atingiu o Brasil. Esta foi uma novidade, pois, antes, só se previam os efeitos da mudança do clima para daqui a 50 ou 100 anos, quando os efeitos serão graves, como a perda de parte da floresta Amazônica, a desertificação do cerrado nordestino, a elevação do nível do mar em alguns decímetros, a redução da produção de alimentos. O quadro atual alerta para a necessidade de adaptação às novas condições.

As metas do Protocolo de Quito para 2008 -2012 não serão suficientes para estabilizar a concentração de CO2 e outros gases na atmosfera, segundo cenários do IPCC que apontam para níveis de emissões elevados. Há o crescimento do consumo de energia na China, onde se populariza o automóvel, mas os países ocidentais têm consumo per capita muito maior. Entra aqui uma questão ética, em geral evitada pelo individualismo da globalização de estilo neoliberal. É possível atacar o problema sem mexer neste padrão de consumo? Alguns propõem soluções tecnológicas – algumas extravagantes, como satélites com espelhos para refletirem a luz solar, outras factíveis como carros híbridos elétricos, pilhas a combustível, energia eólica e solar ou nuclear, seqüestro do CO2, melhorias na eficiência dos equipamentos, etc... Porém, é necessária a racionalização do uso da energia, como reciclar e fazer uso energético de resíduos, proibir grandes carros ou enormes caminhonetes pesadas de uso pessoal urbano com alto consumo de gasolina, incentivar o álcool nos carros flex-fuel e estimular o uso do transporte coletivo. No Brasil, durante os choques do petróleo, o uso de carros foi restringido e o carro a álcool foi incentivado. Os trens suburbanos chegaram a transportar 1 milhão de pessoas por dia no Rio, hoje transportam apenas 400 mil.

O Brasil tem a vantagem de usar em grande escala álcool combustível, de modo que o CO2 emitido é reabsorvido no crescimento da cana. Usa hidrelétricas que emitem muito menos gases do que as termelétricas. Entretanto, a termeletricidade tem crescido demais. O consumo per capita é baixo. O consumo de uma família pobre é quase nada e, portanto, deve aumentar com o Plano de Aceleração do Crescimento, o programa Luz para Todos e a Bolsa Família. Enquanto isso, as classes média e alta consomem muito e não devem ficar isentas de obrigações, nem aqui nem no resto do mundo. A maior parte das emissões brasileiras vem do desmatamento, que representa um pequeno percentual das emissões globais e foi reduzido nos dois últimos anos. Mas ainda há desmatamento ilegal a ser combatido. Há, entretanto, uma confusão. Deve ficar claro que, se o mundo continuar crescendo suas emissões no ritmo atual, se perderá parte da floresta mesmo que se interrompa hoje o desmatamento. Não há solução em um só país. A Amazônia será vítima do efeito estufa global. O Brasil, com sua boa articulação diplomática na América do Sul e também com a África do Sul e a Índia, deve propor uma coalizão dentro da Convenção do Clima para acelerar a redução das emissões.

* Coordenador do Programa de Planejamento Energético da COPPE/UFRJ; Secretário Executivo do Fórum Brasileiro de Mudança Climática, e autor do Terceiro Relatório do IPCC ( 2001)

Artigo publicado na seção opinião da Folha de São Paulo em 16/02/2007