/O Futuro da Energia Nuclear

Data: 
25/08/2000
Autor: 
*Steve Thomas e **Maurício Tiomno Tolmasquim

O fato de que a usina nuclear Angra 2 esteja praticamente pronta e prestes a entrar em operação faz com que as atenções se voltem para a decisão de se concluir ou não Angra 3. Grande parte dos equipamentos para esta usina já foram comprados e se encontram estocados no país, e alguns dos trabalhos preparatórios de construção foram concluídos. Além disso, o país passa hoje por um grande risco de falta de energia elétrica, tornando aparentemente atrativa a conclusão da usina.

O Reino Unido tem uma experiência única de concluir uma planta nuclear que estava parcialmente construída quando o setor elétrico foi privatizado, podendo fornecer elementos para a nossa reflexão sobre o caso brasileiro. O governo britânico em 1987 aprovou a construção pela empresa estatal, Central Electric Generating Board (CEGB) da planta de Sizewell B, de uma potência de 1258 MW. Seu custo de implantação foi estimado em cerca de 3,5 bilhões de dólares. Este custo já era cerca de 11% superior ao que a CEGB em audiência pública tinha apresentado.

Com a vitória eleitoral, o partido conservador decidiu implementar a privatização do setor elétrico. A CEGB foi dividida em duas empresas, a National Power e a Power Gen, e a usina Sizewell B foi alocada a maior delas, a National Power.

Em julho de 1989, o processo de tentar privatizar as plantas nucleares começou a se mostrar inviável. As velhas plantas nucleares foram retiradas de venda. Estas plantas estavam no limite de sua vida útil e não existia nenhuma provisão identificável para pagar o seu descomissionamento. Em novembro de 1989, Sizewell B e todas as demais plantas mais novas foram retiradas de venda. Naquele momento os custos estimados para a conclusão de Sizewell B tinham aumentado para 4 bilhões de dólares, um aumento real de 12% em apenas dois anos. Cerca de metade do custo estimado de construção já tinha sido efetuado. Contudo, com a maior parte do trabalho de construção ainda por ser feito, o gerente da National Power argumentou que a companhia não seria vendável.

A solução do governo britânico foi criar uma nova empresa estatal de energia nuclear, a Nuclear Electric, que ficou responsável entre outras plantas por Sizewell B. O Governo estipulou que 10% de todas as contas de eletricidade na Inglaterra e do País de Gales deveriam ser destinadas para a Nuclear Electric. A soma repassada para a Nuclear Electic representava 50% de sua receita em 1990, já que a receita que esta empresa obtinha com a venda de eletricidade cobria apenas metade de seus custos.

A Nuclear Electric reavaliou os custos de conclusão de Sizewell B, em junho de 1990, em 4,8 bilhões de dólares aos preços de 1993 ou, cerca de 5,6 bilhões de dólares aos preços de 2000. Esta reavaliação era 40% superior em termos reais ao custo previsto na audiência pública e 37% maior que o custo estimado quando do início da construção, três anos antes.

Apesar da pressão da opinião pública para abandonar a construção de Sizewell B, a Nuclear Electric convenceu o governo que a maior parte do custo total de construir a planta nuclear já tinha sido comprometido e que não seria recuperado se a construção fosse abandonada. Assim, a construção pôde continuar e a planta entrou em operação comercial em 1995.

O governo inicia então um programa de revisão do programa nuclear propondo que as plantas AGRs, dentre as quais a Sizewell B, fossem privatizadas através de uma nova companhia, a British Energy. Em 1996, a British Energy foi privatizada por US$ 2,7 bilhões.
Desta forma, a Sizewell B, recentemente concluída a um custo total de cerca de US$ 5,6 bilhões, e sete outras plantas nucleares similares, foram vendidas por metade do preço da construção de Sizewell B. Grande parte do custo da construção de Sizewell B veio do subsídio do consumidor, os quais em sua maioria acreditavam que estavam pagando para um fundo que serviria para o descomissionamento das plantas nucleares existentes.

As usinas termelétricas a ciclo combinado do mesmo tamanho que Sizewell B poderiam ter sido construídas por apenas US$ 550 milhões, gerando uma energia a um custo inferior a 30 US$/MWh. Plantas renováveis, usando, por exemplo, vento, ou biomassa estão sendo construídas no Reino Unido para gerarem energia a um custo entre 50-60 US$/MWh. Enquanto isso, Sizewell B gera uma energia a um custo de cerca de 110 a 140 US$/MWh.

Em resumo, do ponto de vista econômico, a privatização da geração nuclear foi um desastre financeiro para os consumidores. Mais de US$ 5 bilhões do dinheiro pago pelos usuários através de suas contas de eletricidade foram gastos em plantas nucleares que depois foram dadas para proprietários privados por uma pequena fração do seu custo de construção. Não seria apropriado discutir aqui porque o governo inglês foi tão ingênuo sobre os custos da energia nuclear e da pertinência do setor privado comprar plantas nucleares. Contudo, é difícil entender porque, em sucessivas ocasiões, quando o governo teve claras oportunidades de cancelar a construção de Sizewell B, ele não o fez. A explicação mais provável é talvez a relutância do governo em sofrer o embaraço de abandonar uma planta parcialmente construída na qual importantes somas de dinheiro público já tinham sido gastos. Será que a decisão de concluir Angra 3 não nos fará incorrer nos mesmos equívocos que o governo britânico?

*Pesquisador do Science Policy Research Unit (SPRU) da Universidade de Sussex, Inglaterra.

**Coordenador do Programa de Planejamento Energético da COPPE/UFRJ e Presidente da Sociedade Brasileira de Planejamento Energético (SBPE).