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/Cientistas afirmam que para reduzir aquecimento basta vontade política

Se houver vontade política, os governos já dispõem hoje de tecnologias e informações para adotar, no curto e médio prazos, ações eficazes para reduzir as conseqüências das mudanças do clima. São medidas que vão da adoção de práticas de eficiência energética a mudanças no comportamento em relação ao consumo. Além de políticas públicas adequadas, também no plano individual é possível agir para reduzir as emissões de gases do efeito estufa.

Essa opinião é compartilhada pelos pesquisadores brasileiros que participaram do Grupo de Trabalho III do Painel Intergovernamental sobre Mudanças do Clima (IPCC), da ONU: Suzana Kahn Ribeiro, Emílio La Rovere e Roberto Schaeffer. Os três pesquisadores, todos professores da COPPE, são autores do 4º Relatório de Avaliação do IPCC divulgado dia 4 de maio, em Bangcoc.

Os três pesquisadores convergem ao enfatizar que o adiamento de medidas com relação à redução das emissões comprometerá cada vez mais as possibilidades de se atingir metas de estabilização da temperatura global do planeta. Quanto maior o adiamento, mais caro será. Neste contexto, medidas de mitigação e adaptação são decisões importantes para se proteger de um risco futuro e incerto. Esta é a principal mensagem do capítulo 3 do Relatório, que trata dos cenários de mitigação no longo prazo (2100).

O texto do relatório da ONU adverte que o mundo teria que reduzir substancialmente suas emissões de gases do efeito estufa até 2050 para evitar que o aquecimento da superfície terrestre passe dos 2 graus Celsius, comparado à era pré-industrial. Este corte poderia custar até 3% do PIB mundial.


O grande potencial da eficiência energética como alternativa para reduzir as emissões permeia todos os capítulos do novo relatório. Em todas as áreas – indústria, transportes, agricultura, edificações – existem possibilidades de adotar medidas de eficiência energética a custos baixos que reverteriam em grande benefício para a mitigação da mudança climática.

Uma das grandes novidades é o novo foco sobre a relação entre desenvolvimento e mudanças climáticas. Se, no passado recente, investir para se precaver contra as mudanças climáticas era visto como barreira ao desenvolvimento, hoje prevalece a opinião de que não lidar com mitigação sai bem mais caro, diz o capítulo 12, que teve como um dos autores o pesquisador Roberto Schaeffer, professor do Programa de Planejamento Energético da COPPE/UFRJ. A abordagem contraria a afirmação recente do ex-presidente da ONU, Kofi Annan, de que as conseqüências das mudanças climáticas estão se tornando um dos principais entraves ao desenvolvimento e à erradicação da pobreza.

No caso do setor de transportes, que responde mundialmente por 23% das emissões de CO2 e é o que mais cresce - 2% ao ano -, o maior problema para a redução das emissões é o alto custo político das medidas a serem tomadas. Todas as soluções logísticas e tecnológicas para mitigar o problema no curto prazo já existem e não precisam ser reinventadas, sustenta o capítulo 5 do relatório, coordenado pela professora Suzana Kahn Ribeiro, do Programa de Engenharia de Transportes da COPPE/UFRJ, junto com o cientista japonês Shigeki Kobayashi, ligado ao setor automobilístico.


Segundo o pesquisador Emílio La Rovere, do Programa de Planejamento Energético da COPPE/UFRJ, o que induz ao progresso tecnológico são as restrições impostas pelos governos. Ou seja: quanto mais caro ficar determinada tecnologia (ou combustível), mais se partirá para outras alternativas. O capítulo 3 do Relatório sobre Mitigação, no qual ele contribuiu como autor, analisa os cenários de longo prazo (até 2010) e conclui que o custo da estabilização depende da escolha da linha de base, do prazo, das mudanças tecnológicas e da meta de emissão escolhida. Se esta se situar, em termos mundiais, entre 590 e 750 ppm de CO2 equivalentes, o custo estimado ficará entre 1% e 2% do PIB mundial.

Segundo o Secretário - executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, Luiz Pinguelli Rosa, o governo brasileiro deve adotar um plano de ação de mitigação e adaptação das regiões do país afetadas pelas mudanças climáticas.

- Para adotar medidas de mitigação e adaptação, é preciso caracterizar as conseqüências do fenômeno no hemisfério Sul e envolver toda a sociedade – afirma Pinguelli, que também é Coordenador do Programa de Planejamento Energético da COPPE.

Transportes: os desafios do setor que cresce 2%


Os prognósticos para o setor de transportes – que responde por 23% de todas as emissões de CO2 no mundo - não são bons. Apontam para uma intensificação do tráfego de carros e de aviões nas próximas décadas, tornando pouco provável uma guinada significativa neste cenário.

- O setor de transportes é um dos mais complexos para se obter uma redução significativa nas emissões, dada à multiplicidade de agentes envolvidos e ao ônus político necessário para implantar as mudanças. Impossível impedir que os chineses, por exemplo, produzam e comprem cada vez mais automóveis – diz Suzana Kahn Ribeiro, uma das coordenadoras do capítulo 5 do relatório, dedicado aos transportes.

Mais incentivos a transportes públicos, medidas restritivas ao uso do automóvel particular através de pedágios urbanos e da maior taxação, o estímulo ao uso de veículos híbridos (gasolina/eletricidade) e a biocombustíveis e o aumento da eficiência dos motores são algumas das recomendações deste capítulo.


- Já dispomos, hoje, de motores mais eficientes e de combustíveis menos poluentes. O desafio é aumentar a eficiência como um todo, desde a engenharia dos motores até a engenharia do tráfego – diz Suzana Kahn Ribeiro.

O caos urbano na maioria dos grandes centros urbanos nos países menos desenvolvidos, por exemplo, poderia diminuir sensivelmente com medidas simples, como disciplinar a profusão de ônibus e vans que entopem as vias.

Os dois saltos tecnológicos possíveis – e onde o Brasil terá um grande potencial nas próximas décadas - são: 1) a produção de biocombustíveis a partir da celulose (incluindo resíduos, sem pressionar áreas já plantadas para produção de alimentos) e 2) medidas de seqüestro de CO2.

O documento coordenado pela pesquisadora Suzana Kahn Ribeiro alerta para a necessidade de os governos adotarem medidas mais rígidas em relação aos veículos automotores, o que necessariamente incluirá taxação. Alguns exemplos recentes em países desenvolvidos mostram como medidas simples – porém impopulares – podem ser eficientes.

Uma taxação imposta em Estocolmo para evitar o acesso de veículos ao centro da capital sueca reduziu em 13% as emissões de CO2 no período 2005/2006. Já em Londres, o pedágio urbano fez com que, em 2005, um quinto do CO2 emitido normalmente deixasse de ser lançado para a atmosfera.

Para ser eficaz, o combate às emissões no setor de transportes deve incluir necessariamente a renovação da frota – o que, nos países menos desenvolvidos, esbarra em um problema social grande, pois os carros mais antigos (e mais poluentes) são mais acessíveis às classes de baixa renda.

O que cada um de nós pode fazer

O cidadão pode contribuir individualmente. Veja uma lista de pequenas providências que, somadas e multiplicadas por milhões de usuários de carros particulares, podem contribuir com a redução das emissões de CO2:

  • Utilize menos o carro particular, preferindo sempre transportes públicos.
  • Dirija de forma ecologicamente mais adequada: mantenha velocidade média e não ultrapasse 110 km/h. Acima dessa velocidade há um excessivo consumo de combustível
  • Não acelere quando o veículo não estiver em movimento e procure utilizar carros mais eficientes
  • Adote procedimentos muito simples: andar com os pneus sempre calibrados economizará gasolina
  • Revise a emissão de gases do seu veículo
  • Reduza o uso do ar-condicionado, pois reduz a potência e eleva o consumo de gasolina
  • Nunca sobrecarregue o veículo: mais peso, maior consumo de combustível
  • Comece a utilizar a bicicleta na medida do possível.
  • Não viaje só, organize traslados em grupos ou em transportes coletivos


Clima e desenvolvimento: uma parceria inevitável

As rápidas mudanças do clima no planeta obrigam a repensar o desenvolvimento sustentável, diz o capítulo 12 do texto, do qual o cientista brasileiro Roberto Schaeffer é um dos autores.

– Cada nova decisão política precisa incorporar a variável ambiental. Isso vai dos menores atos oficiais – a troca de frota governamental, uma licitação para comprar papel – até políticas mais abrangentes, como o desenvolvimento econômico da Amazônia. Mais do que tratar apenas da mitigação, as políticas públicas devem também levar em conta estratégias de adaptação às conseqüências das mudanças climáticas - afirma Schaeffer.

O primeiro box do capítulo 12 lembra que incentivos fiscais concedidos pelo governo brasileiro no início da década de 90 à indústria automobilística para alavancar a produção dos chamados carros populares (mil cilindradas) - medida destinada a promover a atividade industrial e gerar empregos - acabaram gerando dividendos ambientais para o país em termos de emissão. Sem a venda em massa de carros com motores menos potentes em substituição a veículos mais potentes e mais consumidores de combustível, as emissões de carbono do setor de energia, no ano de 2000, teriam sido 11% mais elevadas.

O caso serve para ilustrar a tese de que existem várias trajetórias possíveis de desenvolvimento, algumas mais e outras menos intensivas em emissão de carbono, sendo que nem sempre obrigatoriamente as primeiras conduzem a resultados melhores em termos de desenvolvimento.

Eficiência energética: medidas de baixo custo

Ainda em relação ao Brasil, o capítulo 12 também cita o programa de eficiência energética do Procel como exemplo de escolha política que implica em menos geração de gases de efeito estufa. Eficiência energética é um conceito que permeia todo o relatório. Os três cientistas brasileiros são unânimes em afirmar as tecnologias e os procedimentos já existentes reduziriam em muito as emissões de gases de efeito estufa e não implicam necessariamente em gastos muito elevados.

- É a chamada política do não-arrependimento: o custo da adoção de determinadas políticas de eficiência energética acaba sendo mais baixo do que não fazer nada – diz Roberto Schaeffer.

- Ações de mitigação são como o mecanismo de hedge na economia: você investe hoje para se precaver contra um risco futuro que não se pode avaliar ao certo – compara o pesquisador Emilio la Rovere.

Membro do IPCC desde 1992, quando participou da preparação do Grupo III do Segundo Relatório de Avaliação, La Rovere é um dos autores do capítulo 3 do novo relatório. Integra também o chamado Grupo de Trabalho sobre Dados para Cenários de Impacto e Análise Climática (Task Group on Data Scenario Input for Impact and Climate Analysis), responsável por reunir e filtrar os dados usados para a construção de todos os cenários do IPCC.

O capítulo 3, do qual Emílio La Rovere é um dos autores, trata dos diferentes cenários de longo prazo para estabilização das emissões a nível mundial, e também aponta para a eficiência energética como uma das opções de mitigação. Além das medidas de eficiência, outras alternativas emergem ao mesmo tempo como possibilidades de desenvolvimento para o Brasil.

No caso do uso da terra, o texto cita estudos indicando que alternativas de mitigação relativas ao uso do solo podem significar entre 15% e 40% do total das emissões evitadas. No caso da agricultura, o estímulo às técnicas de plantio direto também pode ajudar significativamente na mitigação. O aumento da produção de energia a partir da biomassa também pode contribuir com entre 5% e 30% das emissões evitadas.

Existem várias referencias ao Brasil no capítulo 3, especificamente no que toca biocombustíveis e o Proalcool, um programa mundialmente reconhecido pela sua contribuição à redução das emissões.


- Todos os cenários indicam que o Nordeste brasileiro será bastante afetado pela mudança do clima, com mais incidência de secas, e a produção de biodiesel na agricultura familiar pode ser uma alternativa de adaptação e , ao mesmo tempo, de mitigação – diz Emilio La Rovere. - O desafio, cada vez mais, é a busca desse tipo de estratégia combinada de adaptação e mitigação.

Segundo o secretário- executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, Luiz Pinguelli Rosa, o governo brasileiro deve adotar um plano de ação de mitigação e adaptação das regiões do país afetadas pelas mudanças climáticas.

- Para adotar medidas de mitigação e adaptação, é preciso caracterizar as conseqüências do fenômeno no hemisfério Sul e envolver toda a sociedade – afirma Pinguelli.

 

  • Publicado em - 04/05/2007