/Meio ambiente como vetor para o desenvolvimento

Suzana Kahn Ribeiro
Professora da Coppe/UFRJ e presidente do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas.

Mudança climática e biodiversidade deveriam ser vetores para a economia do século XXI. Da mesma forma, a economia do conhecimento é essencial para o progresso futuro. 

 

O Brasil, por ter pouca tradição na área de ciência e tecnologia, está distante de ser uma sociedade do conhecimento. Ao negligenciar este importante capital, aumenta a dificuldade de superar o nosso pífio desenvolvimento econômico e social. A visão de curto prazo com que se caracterizam as decisões dos sucessivos governos brasileiros faz com que o Brasil não evolua, pois o conhecimento científico é um processo contínuo e cumulativo, que para ser eficiente e eficaz deve ser incorporado na agenda do planejamento de longo prazo do País.

 

Temos presenciado o descaso com a área de ciência, tecnologia e inovação no Brasil, em geral, e no Rio de Janeiro, em particular, o que nos leva a crer que nossos governantes não fazem ideia da importância do desenvolvimento tecnológico frente aos desafios deste século. É urgente mudar o curso, pois se mantivermos essa trajetória iremos impedir o desenvolvimento futuro do País, deixando-o a reboque das economias que se modernizaram.

 

A bioeconomia é um exemplo da falta de visão estratégica do Brasil. Bioeconomia pode ser descrita como a área da economia que abrange a produção sustentável de recursos renováveis e sua conversão em alimento, fibras, ração animal, químicos, materiais e bioenergia, por meio de tecnologias eficientes e inovadoras, provendo benefícios econômicos, sociais e ambientais.  Por conta das mudanças climáticas, tem sido vista como uma oportunidade de novos negócios e geração de emprego. O Fórum Econômico Mundial avaliou que o potencial em termos de novos negócios na cadeia de valor da biomassa pode alcançar globalmente uma cifra de 295 bilhões de dólares no ano de 2020, valor três vezes superior do que em 2010. No entanto, o Brasil não desponta como um exemplo nesta área, se mantendo restrito apenas ao uso de etanol e do bagaço de cana de açúcar que são muito limitados frente a tantas possibilidades que o uso da biomassa apresenta. Adicionalmente, ao viabilizar produtos da biomassa, a floresta em pé passa a ter maior valor econômico do que desmatada, preservando-se, portanto, a nossa biodiversidade.

 

O Rio de Janeiro por ter uma das maiores concentrações de universidades e centros de pesquisa do Brasil, com potencial de protagonizar a economia do conhecimento de enorme valor agregado e "zero" emissão de carbono, poderia se tornar um polo de inovação na engenharia da biomassa. Aliado a outros parceiros, sobretudo aqueles sediados nas regiões de floresta, o Rio teria capacidade de desenvolver tecnologia para produtos baseados em biomassa.

 

É fundamental que o Brasil inove na busca de oportunidades na cadeia de valor da biomassa tão abundante.  Os resultados observados nos países desenvolvidos na área de bioeconomia mostram que esta é uma estratégia que vale a pena.

 

* Suzana Kahn é professora da Coppe/UFRJ e presidente do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas.
* Publicado, originalmente, em O Globo, no dia 29/5/2018, sob o título "Aposta na bioeconomia".
 

Resumo Descrição: 
Mudança climática e biodiversidade deveriam ser vetores para a economia do século XXI. Da mesma forma, a economia do conhecimento é essencial para o progresso futuro. O Brasil, por ter pouca tradição na área de ciência e tecnologia, está distante de ser uma sociedade do conhecimento. Ao negligenciar este importante capital, aumenta a dificuldade de superar o nosso pífio desenvolvimento econômico e social. A visão de curto prazo com que se caracterizam as decisões dos sucessivos governos brasileiros faz com que o Brasil não evolua, pois o conhecimento científico é um processo contínuo e cumulativo, que para ser eficiente e eficaz deve ser incorporado na agenda do planejamento de longo prazo do País.