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/Frederico Jandre: um atleta na engenharia

No mundo esportivo, a expressão “prata da casa” é orgulhosamente utilizada por clubes e treinadores para fazer referência a atletas formados pelas categorias de base dos clubes. Equivale a mostrar “o que se tem de melhor”. Frederico Jandre conhece bem a expressão, porque já foi, ele próprio, um atleta. Mestre e doutor em Engenharia Biomédica pela Coppe, desde 2002 integra o corpo docente da instituição. Em novembro de 2011, recebeu o Prêmio Coppe Giulio Massarani de Mérito Acadêmico – Categoria Jovem. Como não se pode jogar em todas as posições, deixou o atletismo pela vida acadêmica, mas manteve o título: é “prata da casa”.

Como professor de Engenharia Biomédica da Coppe, Jandre desenvolve pesquisas na área de ventilação pulmonar, especialidade voltada para o tratamento de pacientes hospitalizados que precisam de auxílio de equipamentos para respirar – os chamados ventiladores pulmonares. Já orientou uma tese de doutorado, 16 dissertações de mestrado, publicou 15 artigos em periódicos nacionais e internacionais e possui 46 trabalhos publicados em anais de congressos no Brasil e no exterior.

Entre o atletismo e a engenharia

Jandre ingressou na UFRJ em 1989 para cursar Engenharia Eletrônica. Mas a carreira não estava resguardada de alguns abalos e indecisões. Em 1994, aos 22 anos, foi atleta federado de triatlo, modalidade esportiva que engloba provas de natação, ciclismo e corrida e chegou a fazer parte da lista dos dez melhores ranqueados do Estado do Rio de Janeiro em duatlo, no qual se incluem somente as duas últimas modalidades.

Ao enfrentar a dura rotina de conciliar treinos e estudos, chegou a titubear em sua escolha e pensou em mudar o curso para Educação Física. Mas resolveu ir em frente e, em 1996, concluiu a graduação em Engenharia Eletrônica. No último período do curso, o acaso resolveu dar um incentivo à sua futura carreira. Jandre se inscreveu na disciplina Áudio, ministrada pelo professor Márcio de Souza, que, naquele período, coincidentemente, estava ingressando no Programa de Engenharia Biomédica (PEB) da Coppe. Para compor as novas turmas, o professor o estimulou a tentar o mestrado. Indeciso em relação aos rumos da profissão, o aluno resolveu se inscrever: estudou, foi selecionado e ingressou na Coppe.

Aproximou-se do professor Márcio, com quem já havia desenvolvido uma boa convivência durante a graduação e que acabou sendo seu orientador no mestrado. Jandre, que no mestrado estudou os sons emitidos pelo coração, teve a ideia de pesquisar o som dos golfinhos como tema para o seu doutorado. A proposta inicial era aliar três grandes prazeres: trabalhar com animais, desenvolver um projeto ao ar livre e manter a pesquisa sob a orientação do professor Márcio, com quem já estava entrosado e acostumado a trabalhar.

Mas a bolsa de doutorado estava destinada a uma pesquisa voltada para estudos na área de ventilação pulmonar, coordenada pelo professor Antonio Gianella Neto. O estudo já estava encaminhado, e o professor buscava um doutorando para finalizar a pesquisa. Jandre topou o desafio e, em 1998, ingressou no doutorado, sob a orientação do professor Gianella.

No último ano do doutorado, em 2001, deparou-se com mais uma oportunidade. Havia surgido uma vaga para professor da Coppe no Programa de Engenharia Biomédica. Como o edital previa o começo das atividades para o ano seguinte, resolveu se apressar para terminar o doutorado e publicar artigos que o qualificassem academicamente para a disputada vaga. Conseguiu concluir a tese e os artigos a tempo, e o esforço foi compensado: em 2002, com 30 anos de idade, retornou à sala de aula, sendo que dessa vez como professor. Na época, foi um dos mais jovens a integrar o quadro docente da Coppe.

O incentivo dos avós ao jovem promissor

Carioca, desde os 2 anos de idade Jandre mora em Niterói. “Não troco Niterói por nada, nem mesmo pelo Rio de Janeiro”, brinca. A única vez que morou fora da cidade foi aos 6 anos de idade, período de construção da casa em que viveu durante 25 anos, no bairro de Itaipu. Mudou-se com a família na casa dos avós, na Fazenda do Caju, em Maricá, local onde costumava passar férias prolongadas. Segundo Jandre, a fazenda era um “lugar muito especial”. Ele costumava associá-la ao que lia nos livros de Monteiro Lobato sobre o Sítio do Pica-Pau Amarelo.

Filho de médicos, ainda criança demonstrou interesse pelos livros de medicina. Na época do vestibular, chegou a ficar em dúvida quanto a cursar psicologia, mas o gosto pela engenharia, que já era latente desde a infância, falou mais alto. Segundo Frederico, os avós foram os primeiros a investir na sua carreira de engenheiro. A avó Maria Caetano Jandre percebeu desde cedo o interesse do neto por aeromodelismo, montar e desmontar aparelhos e novidades tecnológicas. Já o avô, Santana Jandre, o influenciou com a sua habilidade no manejo de ferramentas. “Ambos contribuíram muito”, ressalta o jovem professor.

Aos 11 anos de idade, ganhou da avó um computador TK-85, coisa rara na época, e sozinho começou a aprender programação. Aos 13 anos, costumava usar o walkie-talkie que ganhou de um primo para sintonizar as rádios amadoras da região de Maricá. Entrou em contato com uma delas, a estação Paraíso das Garças, e foi convidado a fazer uma visita à “sede”, onde foi apresentado aos bastidores da rádio e recebeu mil dicas sobre o assunto.

A hora e a vez de Clara

Torcedor do Flamengo, Jandre foge à tradição de sua cidade de adoção, na qual impera a simpatia pelo Botafogo. “No fundo, o que gosto mesmo é do jogo bem jogado”, afirma, fazendo uma analogia a uma frase do cientista Carl Sagan no livro Bilhões e bilhões, na qual o autor comenta sobre o fanatismo que a escolha de um time pode levar e se pergunta: “Por que escolher um lado? Por que não simplesmente desfrutar de um bom espetáculo?”. A reflexão chamou atenção de Jandre, que sempre se lembra dessa passagem quando assiste a um bom jogo.

O jovem professor aprecia literatura, com preferência para a não-ficção, gosta do que chama de “boa música brasileira” e até arrisca uns dedilhados no violão. E, quando tem um tempo livre, costuma praticar atividades físicas ao ar livre, como corrida e ciclismo. Mas de todas as atividades que exercita atualmente, a que ele mais gosta de desempenhar é a de ser pai de Clara: uma garotinha loura, de 4 anos de idade, que chegou como um doce tufão, dominando o pedaço e nocauteando o ex-atleta, que, ao falar da filha, costuma exibir um sorriso tão largo como o do gato de Alice no País das Maravilhas. Quem convive com ele sabe de cor e salteado todas as novidades e últimas gracinhas da Clarinha, o “xodó do pai”.

“A chegada da Clara foi desejada, mas não completamente planejada. Na época, não me sentia totalmente pronto para ter filhos. Mas a insegurança passou. Hoje, meus momentos de maior satisfação são os que passamos juntos. Cada instante é único”, ressalta Jandre, relatando em seguida uma noite em que foram até a varanda de casa para se despedir das estrelas, das árvores e dos animais, como de costume antes de dormir, e Clara simplesmente tomou a iniciativa e começou o ritual à sua maneira. “Aquilo me encheu de emoção”, relembra.

Jandre define a própria vida como “uma sucessão de acasos que foram se encaixando”. Mas revendo sua trajetória na universidade, é impossível deixar de compará-la a de atletas das categorias de base. Frederico Jandre integra o grupo de artilheiros do time da nova geração da Coppe e, pelo início de jogo já demonstrado em campo, promete muitas goleadas.

 
  • Publicado em - 08/11/2011