/Projeto Espacial Brasileiro: Revisão e Mutirão

Data: 
01/09/2003
Autor: 
*Renato Machado Cotta e Fernando A. Rochinha

O primeiro momento após uma tragédia como a que se abateu sobre o Programa Espacial Brasileiro no dia 22, envolvendo a perda de vidas humanas, é de consternação, de respeito à dor dos parentes e amigos e do exercício da solidariedade.

Logo após segue-se um período de muitas especulações, onde se busca encontrar as causas e investigar a inexorabilidade do ocorrido. As respostas envolverão uma análise minuciosa e rigorosa por parte de uma comissão de especialistas já nomeada pelas autoridades competentes. Essa apuração levará um tempo considerável, basta lembrar que somente essa semana foi apresentado o primeiro relatório técnico oficial sobre a queda do ônibus espacial Columbia, ocorrida em janeiro último.

O país de tecnologia espacial mais avançada do mundo deu um recente e oportuno exemplo de revisão do seu programa espacial. Após o não menos trágico acidente com seu ônibus espacial Columbia, foi constituída uma comissão independente para avaliação das causas do acidente, local e globalmente. Dentre as vinte e nove recomendações do trabalho desta comissão, disponibilizado justamente essa semana, a satisfação de quinze delas se mostram impeditivas para qualquer nova ação da NASA no programa do ônibus espacial. Entretanto, mais do que analisar os detalhes técnicos da falha específica, essa comissão percorreu procedimentos técnicos em geral, bem como organizacionais e gerenciais, de todo o programa espacial.

Sem prejuízo ao trabalho de outra comissão interna da NASA, essa comissão independente, socialmente mais representativa, ofereceu à sociedade civil uma resposta à altura da importância deste programa tecnológico, para ela sociedade e, ainda mais, pelo vulto dos investimentos nele despendidos, até aqui e futuramente. Certamente aos técnicos da própria NASA essa visão externa crítica e isenta de resquícios de disputas internas e vícios gerenciais, só poderá acrescentar qualidade, diversidade e segurança ao seu trabalho.

Independentemente das circunstâncias técnicas que levaram à tragédia, o país volta seus olhos ao Programa Espacial, passando a discutir questões fundamentais como a necessidade de dar continuidade aos objetivos brasileiros traçados anteriormente. Essa discussão inexoravelmente será permeada pela emoção, cumpre, no entanto, levá-la a termo, explorando as diversas facetas e perspectivas que envolvem o assunto.

No Brasil, desde o estabelecimento da Missão Espacial Completa Brasileira (MECB) no final dos anos setenta, a execução do programa espacial ficou a cargo quase que exclusivamente de dois centros de pesquisa: o INPE(Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), hoje vinculado ao Ministério de Ciência e Tecnologia, e o IAE-CTA(Instituto de Aeronáutica e Espaço), este vinculado ao Ministério da Defesa, cabendo, em linhas gerais, a cada um tarefas específicas e relativamente independentes no programa, ou seja, projeto e construção de satélites, e do Centro de Lançamentos e Veículo Lançador de Satélites, respectivamente.

Após a criação da Agência Espacial Brasileira (AEB), não foi alterada de maneira significativa essa estrutura organizacional e de execução. Ao longo desses mais de vinte anos, o modelo central do programa espacial, exceto por algumas adaptações técnicas, foi pouco revisto e alterado, sendo executado ao longo dos anos com maior ou menor grau de sucesso, dependendo da etapa, por equipes razoavelmente voláteis, tendo em vista causas diversas, como baixos salários e atratividade do mercado de trabalho na região.
Torna-se necessário que no Brasil se rediscuta, juntamente com outros aspectos essenciais como o aumento da participação das Universidades e Centros de Pesquisa, o papel das instituições que participam ativamente de nosso Projeto Espacial e que estabeleçam-se, claramente, linhas de atuação e o comando.

O momento chama por um mutirão científico e tecnológico, sob a liderança e coordenação da AEB. Para construir a partir de tão grande perda ocasionada no acidente com o Veículo Lançador de Satélites, deve-se buscar a colaboração de todos aqueles que de alguma forma possam ajudar nessa tarefa de revisão e reconstrução do Programa Espacial Brasileiro. O debate que nasce a partir do acidente deve ser aprofundado e conduzido de forma serena e madura. Esse debate deverá robustecer o Programa Espacial Brasileiro, o que será uma forma de respeitar e dignificar a memória dos que se foram no trágico acidente.

*Renato Machado Cotta e Fernando A. Rochinha são professores do Programa de Engenharia Mecânica da COPPE-UFRJ (Coordenação dos Programas de Pós-graduação em Engenharia.

Artigo publicado no jornal Folha de São Paulo, dia 30 de agosto de 2003.